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“Caminheiros sem fronteiras”, percurso lúdico-cultural no “Burcan”

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1- Os “CAMINHEIROS SEM FRONTEIRAS”, a rondar as 9 primaveras, desta feita, decidiram aproveitar o feriado de 1 de Junho de 2012 e fizeram um percurso fora da Ilha de Santiago, e, a Ilha escolhida foi a do Fogo, mais precisamente a escalada ao ponto mais alto do vulcão mor da Chã das Caldeiras.

A expectativa e a ansiedade, o medo e a emoção, o respeito pela delicada e majestosa imponência do monólito vulcânico transformaram-se num misto de sedução divina e desejo sórdido da conquista do belo natural, quase uma arte celestial plantada sobre este arquipélago crioulo. Entre lágrimas de espanto, risos de maledicência sarcástica nas conversas que embalaram o percurso entre o sopé e a cratera do inerte, extinto “burcan”, como rezam os sismólogos, nada fazia suspeitar que “jovens” na faixa de 27 a 55 anos pudessem chegar ao ponto cimeiro do majestoso, soberbo e megalómano “burcan”, em perfeito contraste com a pacata, discreta e diminuta aldeia dos Montrond, grandiosidade essa que terá supostamente inspirado o fulano para os seus 40 filhos bem reproduzidos nesse breu da Chã das Caldeiras.

 

2- O caminheiro Aquiles, de 27 anos, consumiu grande parte do tempo para descobrir seu calcanhar a dois terços do percurso, nada mau, pois, os menos moços, no primeiro terço, tiveram-no já descoberto. 3 longas horas, para os primeiros e sensivelmente 4 infindáveis horas para os menos apressados, subindo uma íngreme descida a rondar os 40/50 graus de inclinação, em alguns troços, para, em apenas uma hora, perdermos altura até à base deslizando sobre jorra negra num percurso distinto da subida. Com 3 guias turísticos colocados no inicio, no meio e no fim da caravana, fomos escoltados e conduzidos pelo caminho de pé posto entre a escorregadiça jorra e pedregulhos que amiúde ameaçavam rolar perigosamente a encosta abaixo, com sérios riscos de molestarem o caminheiro de trás. Todo o cuidado foi pouco para uma fila indiana de 53 indivíduos, pois, o caminho não comporta duas pessoas ladeadas no diminuto fio de percurso à disposição dos caminheiros rumo à boca do “burcan”. O ponto mais alto acessa-se através de um cordel de aço atado à rocha, construído por um francês de passagem pela aldeia; qualquer paço em falso precipita-se vertiginosamente numa queda abrupta de 2829 metros de “altitude” até à base, raspando os ossos com o peso da irresponsabilidade de uma ousadia gratificante.

 

3- Foi um pretexto útil e agradável para combater o sedentarismo, o stress e para contactos directos com realidades outras, incentivando um turismo interno de alto valor imaterial, sobretudo; agraciar as criancinhas da escola com prendas úteis às tarefas escolares, levar um pouco do que temos,  do melhor do nosso carinho emotivo, à Chã das Caldeiras e do vinho, do “manecon”e do queijo, do leite de cabaça e do café único. Esta iniciativa tem reflexos directos na apreciação e apreensão da essência do nosso território e no nosso enriquecimento pessoal sobre este  “imenso” arquipélago de Ilhas desconhecidas por muitos de nós, pois, a única maneira de percebermos os outros e conseguirmos transmitir a nossa cultura é conhecendo, a fundo, a nossa realidade. Esse companheirismo, essa troca de experiências, de amizades, de cumplicidades, de gratidões, de espírito de inter-ajuda, trouxeram, até nós, forças para suportarmos o percurso agreste, a falta de luz, de água, as anedotas menos cuidadas no picante, os leves atropelos da diferença de personalidades, os constrangimentos diversos; tudo isso se desvanece como castelo de jorra frente à superior gratificação do verdadeiro propósito do “caminheiros sem fronteiras”.

 

4- Os “Caminheiros sem Fronteiras” dedicam esta sua caminhada ao eterno olhar profundo e melancólico das criancinhas sofridas, que brotam das profundezas dessa parcela do nosso arquipélago emergente do breu da lava por onde passamos, de olhos castanhos, azuis, verdes, negros, cinzas; de fartas cabeleiras louras, e outras tonalidades universais, quais filhas de um deus menor na sua enfraquecida aparência, transportando as estiagens cíclicas e as mazelas da resignada pobreza investida de um certo esquecimento pela inércia e comodista dos adultos. Depois da caminhada, a noite de luar aberto em oposição ao negro fechado da lava facilitou a repescagem das serenatas de outrora, no bar do Sr. Ramiro Montrond, entre “manecom” doce e seco, embalados pela rabeca do Ramiro e seus “violeiros” mais acompanhamento vocal e instrumental dos polivalentes caminheiros enterrou-se este fabuloso itinerário lúdico e cultural.

 

 

Hermano Lopes da Silva

 

 

 

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