Foto: Odair Varela
Depois da apresentação, em São Vicente, do filme São Tomé os Últimos Contratados, do realizador Leão Lopes, o Cônsul de São Tomé e Príncipe, José Silva, respondeu a perguntas da plateia, sobre as condições de vida dos caboverdeanos que vivem em de São Tomé e Príncipe:
"Estamos com farrapos humanos em São Tomé e Príncipe"
É preciso encontrar uma plataforma de entendimento entre os Governos de Portugal, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, porque temos lá pessoa que já não são gente. São farrapos humanos, desculpem-me a expressão, mas estamos com farrapos humanos, em São Tomé e Príncipe.
"Ninguém sabe ao certo quantos caboverdeanos estão em S. Tomé"
Há pessoas que estão no meio do mato, sem electricidade, sem água e sem nada. Ninguém sabe ao certo quantos caboverdeanos estão em S. Tomé. Segundo as minhas estimativas, já visitamos praticamente todas as roças e outras pequenas comunidades, temos cerca de 70 mil caboverdeanos, incluindo filhos e netos, porque segundo a lei de Cabo Verde, filhos e netos são considerados caboverdeanos, caso desejam assumir a nacionalidade. Dos que são naturais de Cabo Verde e que foram para lá devemos ter cerca de 3 mil pessoas vivas.
Caboverdeanos queixam-se de discriminação e não conseguem trabalho
Não se pode falar muito de trabalho dos caboverdeanos na cidade ou no emprego público. Quase que não há mão-de-obra qualificada. Muitos queixam-se de descriminação. Poucos caboverdeanos estão no serviço público precisamente porque não tem uma educação formal e escolaridade que lhes permitem competir no mercado de trabalho. É muito difícil encontrar trabalho em S. Tomé. Metade das vendedeiras no mercado de S. Tomé são caboverdeanas. Grande parte da comida que se come em S. Tomé vem dos braços dos caboverdeanos.
Caboverdeanos sobrevivem com dez dólares por mês
Existem 855 pessoas em S. Tomé beneficiados do apoio que o Governo de Cabo Verde está atribuindo. O número de caboverdeanos que se encontram em condições merecedora desse apoio é muito mais elevado. Eu diria 3000 mil ou 10 mil mesmo, mas só que o montante que é enviado não dá para abranger a todos. Por isso é que temos elementos que consideramos na atribuição desse apoio. Numa família, somente um dos cônjuges pode receber esse apoio para que uma outra pessoa, numa outra família possa receber também. O valor é de dez dólares por mês. Dez dólares é de facto um valor baixo. Parece-nos quase que uma miséria mas em São Tomé e Príncipe é um sustento, salva vidas. Há muita gente que sobrevive neste momento graças ao apoio que recebe do Governo de Cabo Verde. Temos caboverdeanos que lá estão há 50 anos e não recebem nem uma reforma ou uma pensão de velhice.
Apostar no apadrinhamento e formação
Nós temos filhos de caboverdeanos em Universidades e Instituto Pedagógicos. Precisamos apostar em iniciativas estruturais, como formação e educação porque parece-me que é isso que irá dar sustentabilidade e permitirá ao caboverdeanos ter mobilidade na sociedade de S. Tomé, porque senão eles não sairão desse ciclo de pobreza e doença.
Deve-se fazer, localmente, pequenas comissões ou associações para que haja transparência e responsabilização, de origem até ao destino. Nos Estados Unidos temos várias associações que apadrinham caboverdeanos em S. Tomé. Temos aqui em Cabo Verde estudantes a estudar em Universidades com apadrinhamento das nossas comunidades em vários países. Caboverdeanos, sociedade civil, tanto em Cabo Verde como na diáspora estão ajudando.